quarta-feira, 28 de janeiro de 2009

O que raios é Tanino?

Recentemente um amigo me questionou o que raios era tanino, que ele havia lido em uma revista que comentava sobre um determinado vinho tino. Respondo que tanino faz parte da trilogia do vinho tinto: acidez, álcool e tanino.

Durante a elaboração do vinho tinto, a partir das uvas, a casca é um item obrigatório, pois é ela quem dá a cor ao vinho. Mas a casca possui mais coisas além da cor, ela incorpora alguns sabores, alguns aromas e também taninos. As sementes e pedaços do engaço também são responsáveis por introduzir taninos ao vinho tinto.

Taninos na definição química-biológica são polifenóis de origem botânica e, em geral, tem a função de proteger a planta de ataques de microrganismos e outros animais. Porém para o vinho o que importa é o resultado final. Se os brancos apresentam vantagens em relação aos seus aromas, os tintos ganham abertamente no quesito tanino, pois apresentam em abundância, enquanto os branco não apresentam em quantidade expressiva.

Ao tomar um vinho tinto (fino, ou seja, não é um Campo Largo) algumas coisas serão perceptíveis: primeiro os aromas que invadirão as narinas e boca; segundo o álcool que se mostrará presente nas laterais da boca, gengivas e em baixo da língua; terceiro a a acidez que vai estar presente na lateral da língua e; o tanino, que vai dar aquela sensação de "amarrar" a boca, semelhante a banana verde ou caqui. Tanino é o responsável por aquela sensação de deixar a língua "seca" ou com a sensação de não ter saliva.

Pode parecer estranho ao leitor não habituado a beber vinho, mas o tanino é algo desejável, é consequente do vinho tinto e que o enólogo busca "domar", deixando-o mais suave e "maduro". O resultado final dos taninos depende de vários fatores. O primeiro é uma consequência direta da uva (ou cepa), na Merlot, os taninos são mais suaves e macios, na Cabernet Sauvignon são um pouco mais presentes, na Malbec Argentina são bastante presentes e na Tannat Uruguaia são bastante possantes. Outro fator é a seleção e maturação da uvas, em vinhos mais baratos, resultantes das primeiras colheitas, regiões produtoras não muito boas, colheitas mecanizadas ou sem seleção dos cachos, assim na elaboração do vinho vão uvas maduras, uvas não muito maduras e, algumas vezes, uvas verdes e, quanto menos maduras, mais taninos vão conter. O terceiro fator é como os vinho vai ser tratado na adega, pois quanto mais passar em carvalho, seja com descanso em barris de carvalho ou outros processos não muito ortodoxos, mais vai ter seus taninos domados, melhorados, amadurecidos ou diminuídos. Grandes vinhos de guarda vão conter bastante taninos que com o tempo em garrafa vão evoluir, diminuindo e melhorando.

Um exercício interessante para entender e educar o paladar ao tanino é com chá preto. Basta deixar dois saquinos de chá preto em efusão com 500 ml de água fervente por 5 miniutos. Após aguardar o chá resfriar a temperatura ambiente, pegue um copo pequeno (aqueles de pingado) com água e adicionar duas colheres do chá (sem açúcar), colocar um pequeno gole na boca e bochechar por uns 30 segundos, passando pela ponta, meio, final e embaixo da língua, bochechas e gengivas, não engula, cuspe-o na pia (ou outro lugar conveniente). Repita a operação com quatro colheres de sopa de chá e assim sucessivamente até ficar só com chá puro. Cada vez mais você vai sentir a boca amarrar e a língua secar. Isto é o tanino.

domingo, 25 de janeiro de 2009

Vinhos, Comida e Cinema - II

No post anterior comentei sobre o vinho e a comida na telona. Há um filme que não citei, pois ainda não havia assistido (na verdade tem mais um ainda). Segue abaixo.



Estômago (2008). Uma filme brasileiro da nova safra de ótimos filmes. Rodado em Curitiba, conta, em paralelo, a vida de Alecrim ou Raimundo Donato como ajudante de cozinha e como cozinheiro na cadeia. Sua "mão boa" para a cozinha garante o primeiro emprego na capital em uma lanchonete e depois uma vaga em restaurante chique. Seus conhecimentos adquiridos depois o salvam na cadeia e garantem prestígio junto aos demais companheiros de cela. Um roteiro muito bom, atento aos detalhes, somado a atuação incrível de João Miguel garantem um filme delicioso, altamente recomendado, com ótimas lições de comida e vinho, apesar do final indigesto.

Rosé d'Anjou Guy Saget 2006

Os franceses têm a fama de serem bairristas, nacionalistas, de sempre quererem defender seus produtos e fama, seja na moda, seja na comida, seja na agricultura, seja nos vinhos. O vinho é um ramo gigantesco na França, ocupando a posição de maior produtor do mundo e, neste mar de vinho, nem sempre a qualidade é algo está presente em todas as marcas e produtores. A fim de proteger a fama alcançada por alguns produtos, desde o século 18 os franceses preocupam-se em criar as áreas de origem controlada, a fim de classificar os melhores e também reservar o uso do nome da região, as chamadas "Appelation d'origne Contrôlée" (AOC). Em alguns exemplos de regiões onde existe o controle pode-se citar Bordeaux, Borgonha, Champagne, Alssace, Val de Loire, entre outros, são nomes que não podem aparecer em nenhum outro vinho de nenhuma outra região, seja na França ou no mundo. E estas divisões vão se separando em regiões menores, que por tradição e experiência secular, produzem vinhos distintos e/ou melhores. Na borgonha, por exemplo, existem as regiões de Côte d'Or, Côte de Beanue, Côte de Nuits e várias outras, sendo que dentro da Côte de Beane, por exemplo, tem as sub-regiões de Santenay, Mersalt e, denro de Mersault vai existir o Montrachet, o Puligny-Montrachet, Chevalier-Montrachet, Pommard, Valnay, etc.... Ao final tem-se uma colcha de retalhos que poucos entendidos conseguem entender e/ou lembrar. E para confundir, ainda mais, a cabeça de qualquer um, dentro de cada "sub-sub-sub-sub-região" existem os vinhedos, que podem ser classificados em Grand Cru, Premier Cru, Deuxième Cru... e se você continua a ler esta matéria, saiba que ainda não acabou, pois o resultado final, ou seja a qualidade do vinho ainda depende do produtor, pois o simples fato de ser de uma região controlada não garante um bom produto, sendo que muitas vezes cobra-se o mesmo preço (em geral proibitivos a nós humanos comuns) de um produtor de grande reputação.
O Val de Loire é uma região ao longo do rio Loire que parecer retirada de contos de fadas, com castelos e vilarejos que pararam no tempo. Com grande predileção para vinhos brancos, produz tintos, rosés e espumantes. Grandes variedades de uvas de cultivo mundial encontram-se aqui na sua melhor expressão, como a Sauvignon Blanc, Chenin Blanc e Pinot Gris. E como no resto da França tem-se as regiões distintas de Anjou, Saumur, Vouvray, Pouilly, Sancerre... Para saber o que comprar e achar um bom vinho, só com os guias de compras especializados. Mas ao final de contas é isto que dá o charme a França e seus vinhos, esta preocupação e divisões criam verdadeiros ícones, por exemplo as regiões de Pouilly-Fumé e Sancerre ficam frente a frente, separados pelo rio Loire, porém os vinhos vindos destas regiões, em geral Sauvignon Blanc, são completamente distintos, com aromas e sabores completamente diferentes.
Dentro do Val de Loire existe a região de Anjou, que por tradição produz vinhos mais suaves, não necessariamente vinhos doces, mas fácil apreciação pela maioria dos palatos, mesmo aqueles que não gostam de vinhos, pincipalmente os secos. Uma Appelatin d'Origine Contrôlée é o Rosé d'Anjou, uma região produtora de vinhos rosés, próxima a cidade de Angers. Vinhos meio-suaves a suaves, normalmente feitos com as uvas Grolleau, Cabernet Franc, Cabernet Sauvignon, Pineau d’Aunis e Gamay.
O vinho do título do Post, "Rosé d'Anjou Guy Saget 2006", é proveniente desta região e elaborado por um produtor de boa reputação (Guy Saget). Um vinho meio-seco, com um bom nível de açúcar residual, com aromas de frutas vermelhas frescas, principalmente morango e groselha. Sua doçura sem exageros e seu nível de álcool relativamente baixo (11%) agradará com certeza muitos paladares, principalmente os femininos. Recomendo como aperitivo, ou para acompanhar uma boa salada, um peixe de sabor mais intenso (menos bacalhau) ou mesmo um lombo de porco assado. Um vinho muito agradável, mas que devido a alta do dólar não se torna uma opção interessante.

Vinho: Rosé d'Anjou
Safra: 2006
Produtor: Guy Saget
Região: Val de Loire
País: França
Preço: R$ 50,00 (safra 2007)

Nota: 81/100

sexta-feira, 23 de janeiro de 2009

Vinhos, Comida e Cinema

O cinema é a arte da ilusão, seja por nos iludir com estórias bem escritas (é, nem sempre), seja por criar em nós deliciosas ilusões. A ilusão da mulher linda, a ilusão do romance perfeito, do beijo de tirar o fôlego, os jantares chiques, os vinhos caros, do champagne. Quantos já não conquistaram - ou tentaram - a mulher desejada depois daquele jantar a luz de velas?

Pensando nisto, selecionei uma lista de alguns filmes recentes, onde tem comida, bebida ou ambos.

Sideways (2004): Este é o filme do vinho! Uma viagem às vinículas do Napa Valey nos EUA, com deliciosas, hilárias e surpreendentes estórias ao redor. Muitas aulas práticas sobre vinho, exageradas é claro, ao estilo de Hollywood. O vinho de destaque é o Cheval Blanc 1961, que é tomado de forma inusitada. Este vinho, raríssimo hoje em dia, vem da sub região de St. Emillion, em Bordeaux na França, fiz uma pequena pesquisa na internet, em sites de vinhos raros, e uma garrafa custa a bagatela de US$ 1.700,00 (sem impostos).

Mondovino (2004): Documentário francês criticando a pasteurização do sabor do vinho produzido no novo mundo. Um pouco radical demais, mas muito interessante para comparar a forma de produzir vinho no novo mundo, com toda sua tecnologia, e a forma de produzir no velho mundo, com toda sua sabedoria e paciência.

Um bom ano (2006): Um filme leve, de acordo com o vinhos da região que retrata: Provence na França. Um típico executivo do mundo das ações recebe de herança uma propriedade de um tio querido (que há anos ele não vê). Ao tentar vender a propriedade ele é fisgado pelas cores, sabores, aromas e mulheres do sul da França. Uma filme meloso para assistir com o par romântico.

Ratatuille (2007): Os desenhos a muito deixaram de ser um privilégio infantil. O filme é uma aula de consideração e apreciação da boa comida e, passada por um rato! Mostra a vida por trás dos bastidores de um grande restaurante, a vida do chef, através das aventuras do ratinho-chef Remy e seu "alter ego", o ajudante de limpeza Linguini. Os vinhos de destaque são Château Latour, um dos 5 grandes vinhos grand cru da região de Bordeaux na França, e o Château Cheval Blanc.

Sem reservas (2007): Retrata a vida da chef de cozinha Kate (Catherine Zeta-Jones), uma workaholic ralando para manter a qualidade do seu restaurante, a dificuldade de relacionamento com a sua sobrinha e os ciumes e invejas do seu novo souz-chef Nick(Aaron Eckhart). Um romance saboroso para ser assistido a dois.

Chocolat (2000): No meio começo do século passado, em um pequeno vilarejo da Itália, extremamente católico, uma mulher divorciada e com uma filha abre uma loja de especialidades de chocolate. Uma deliciosa guloseima pode despertar os desejos mais profundos? O sabor bem preparado pode levar a lascividade, gula, voltar a tomar gosto de viver? Filme ótimo, sobre repressão, religião, pecado e claro, chocolate!

Como água para chocolate (1992): Um filme mexicano dedicado a tradição familiar, principalmente da tradição à cozinha. Fala de um amor proibido onde a comida, que ela prepara com maestria, é a forma de comunhão entre os dois protagonistas. Destaque para as codornas com pétalas de rosa, que supostamente era uma receita afrodisíaca...

Obrigado por fumar (2005): Não tem quase nada sobre comida, mas tem uma cena de destaque, ao tentar conquistar a repórter que deseja lhe entrevistar, Nick pede uma garrafa de Château Margaux 1982, outro dos 5 grandes vinhos grand cru da região de Bordeaux na França que, segundo as palavras do protagonista: "Fará você acreditar em Deus". Uma garrafa deste vinho, quando encontrada, não sai por menos de US$ 900,00 (sem impostos).

sábado, 17 de janeiro de 2009

Verdadeiras mentiras e mentirosas verdades sobre o vinho IV: Vinho bom é Sangue de Boi

A crítica é um território complicado, minado, mas vou tentar justificar o demérito dos vinhos ordinários e baratos. De grande valia nesta discussão, ou melhor, neste monólogo, é definir o que é o vinho. Vinho é o resultado da fermentação alcoólica de uvas, mais especificamente da fermentação do mosto. Mosto é o resultado do esmagamento da uva e pode conter casca, polpa, sementes e pedaços do engaço (ramos que seguram os bagos de uva). A fermentação alcoólica é o processo de transformação, através de microrganismos, chamados leveduras, dos açucares em álcool etílico (e também gás carbônico).
A partir deste ponto pode-se imaginar que qualquer uva pode virar vinho, porém é aí que concentra-se o cerne deste post. Existem aproximadamente 40 espécies de videiras, porém pode-se resumir em dois grupos principais a Vitis vinifera e a Vitis americana, as primeiras pelo próprio nome destinam-se, em geral à produção de vinhos e as demais para uvas de consumo. A partir das primeiras pode-se produzir vinhos finos e longevos, que merecem atenção, já para as demais produz-se vinhos ordinários e de curta duração, que devem ser ignorados, ou muito lembrados no dia seguinte, pela ressaca causada.
A grande diferença entre duas espécies estão nas suas caracteríscas. A vinifera possui mais açúcar e melhor acidez, o que garante a fermentação e o frescor. Porém não é só isso, a vinifera é especial, possui sabores, sua casca ou película fornece mais cor e taninos, são uvas que suportam a transformação, melhorando suas caracteríscas e criando um vinho especial. Uma caracterísca não empírica pode ser observada nos rótulos: um grande vinho possui um volume de alcool de 12% a 16%, equanto em vinhos ordinários está na casa de 8%, ou seja, menor o volume de álcool devida a menor quantidade de açúcar.
Porém a simples utilização das cepas da Vitis vinifera, não garante um bom vinho. Tão importante quanto escolher a videira certa é saber onde plantar e como cultivar. A videira não se adapta bem a todo lugar, em geral exige quatro estações bem distintas, incidência correta de sol e solos não muito férteis ou até pedregosos, um conjunto de fatores que os franceses chamam de terroir. A forma de conduzir a parreira para receber a quantidade correta de sol, o tipo da poda, a adubação e toda atenção dada a cada pé buscando produzir pouca quantidade, buscando a concentração em poucos cachos. A idade da parreira também influencia, pois quanto mais velhas tendem a produzir menos e melhores uvas, existem alguns pés na região do Douro em Portugal com mais de 80 anos e que são responsáveis por vinhos fantásticos.
A forma de produzir o vinho também é fator chave para o resultado final. A colheita e seleção manual dos cachos maduros, a tecnologia e o método da fabricação, a seleção correta das leveduras, o tempo de maturação em barris de carvalho, o descanso em garrafa antes de ir ao mercado, enfim, passos e tradições que são necessários a eleboração de vinhos de qualidade. E tudo isto tem custo, que precisa ser transferido para o preço do vinho.
Por estes cuidados dispensados em vinhos comuns, como Sangue de Boi, Campo Largo é que eles não recebem e não merecem a atenção de um apreciador de vinho - e olha que eles constituem cerca de 80% do vinho consumido no Brasil. No entando eles são bons, muito bons para nos ajudar a apreciar os vinhos finos. Constituem uma primeira lição importante: o que não beber.

terça-feira, 13 de janeiro de 2009

Verdadeiras mentiras e mentirosas verdades sobre o vinho III: jantar, vinho e água

Um restaurante especial, a pessoa amada, luz de velas, Coltrane completando o cenário. Uma noite romântica. Um ano de casado, um mês de namoro, um futuro par, uma comemoração. Escolhe-se os pratos, evento especial permite excessos, merece um vinho. Tudo completo, perfeito.

Certamente o vinho é o complemento obrigatório de um jantar romântico, quem dera se for um borbulhante champagne. Uma cena em preto-e-branco. O vinho pede um grande prato, um grande prato pede um vinho, é harmonia, é casamento. E a inebriante sensação provocada, faces ruborizadas, inibições esquecidas.

O garçon pergunta se gostaria de água para acompanhar, com gás ou sem gás? E eis que revelamos outro mito criado no fantasioso mundo do vinho. Um prato elaborado com carinho e destreza precisa de um vinho para acompanhar, os sabores e aromas do primeiro são destacados com o segundo. E o vinho também ganha, é revelado e muitas vezes melhorado.

A água vai limpar o palato, enxaguar a boca, retirar os sabores e sensações que o prato se propõe. Pior se for com gás. Uma ofensa para quem muitas vezes dedicou um dia inteiro na cozinha. As sensações que seriam completadas pelo vinho são apagadas, substituídas por um vazio que muitos julgam ser o momento de sorver a bebida. Mas não são coisas separadas, distintas, são, em muitas vezes, uma só.

Assim na próxima vez que o garçon sugerir uma água, agradeça mas não aceite. Deixe a água para quando estiver com sede.

domingo, 11 de janeiro de 2009

Radiohead, Stout e Chocolate

Reckoner no som. Stout no copo. Chocolate 85% cacau.

Os dois últimos sabia que combinavam. Somado ao primeiro descobri: complementam.

O último CD do Radiohead, "In Rainbows", aquele que para baixar era só pagar quanto quisesse, se quisesse. Música 7 é "Reckoner". Uma garrafa de cerveja Baden Baden Stout, produzida em Campos do Jordão, delicioso amargor. Amargor com amargor, chocolate Lindt 85% de Cacau. Amargor com amargor, letras amargas, sabores amargos.